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A mulher que sumiu da Bíblia por causa de uma única letra grega

Há uma frase na Bíblia que intriga estudiosos há séculos. No começo da segunda carta de João, ele escreve: “o ancião, à senhora eleita” (2 João 1:1). Por muito tempo, a explicação mais aceita foi que essa “senhora eleita” não era uma pessoa de verdade, seria só uma forma poética de se referir a uma igreja inteira.

Uma pesquisa recente, porém, propõe outra explicação: essa mulher existiu de verdade, e até o nome dela pode ter sido descoberto. Segundo esse estudo, ela só “sumiu” do texto por causa de um pequeno erro cometido ao copiar a carta, há quase dois mil anos.

Essa é a ideia central do livro Lady Eclecte: The Lost Woman of the New Testament [“A Senhora Eclecte: A Mulher Perdida do Novo Testamento”], escrito por Lincoln H. Blumell, professor da Universidade Brigham Young (BYU) e publicado em 2025. O livro foi resenhado por Spencer Kraus na revista acadêmica Interpreter: A Journal of Latter-day Saint Faith and Scholarship.





Uma carta de verdade, não uma metáfora

Blumell estuda cartas antigas escritas em papiro, o “papel” usado na época de Jesus. E é justamente isso que ele percebeu: 2 João tem tudo a ver com uma carta pessoal comum daquele tempo, e não com um texto simbólico. A própria carta até menciona o material em que foi escrita: “Tendo eu muitas coisas que vos escrever, não quis fazê-lo por meio de papel e tinta” (2 João 1:12).

Comparando 2 João com centenas de outras cartas antigas que sobreviveram até hoje, Blumell mostra que ela tem o mesmo tamanho, o mesmo estilo e a mesma forma de começar que as cartas reais da época, inclusive na maneira como se dirige à pessoa que vai recebê-la.

O pequeno erro que mudou tudo

Aqui está o ponto mais interessante da descoberta. No texto grego original, a expressão que hoje é traduzida como “à eleita senhora” é ἐκλεκτῇ κυρίᾳ. Segundo Blumell, o texto certo deveria ser Ἐκλέκτῃ τῇ κυρίᾳ — ou seja, “à senhora Eclecte”. A diferença é sutil, mas muda tudo: “Eclecte” deixaria de ser um adjetivo (“eleita”) e passaria a ser um nome próprio de mulher, seguido da palavra “senhora”.

O que aconteceu, provavelmente, foi isto: como duas palavrinhas iguais apareciam seguidas no texto grego, quem copiou a carta acabou pulando uma delas sem perceber, um deslize comum em manuscritos antigos, quando o olho do copista “pula” uma repetição. Com isso, o nome da mulher foi silenciosamente apagado, e a frase passou a soar como se fosse só um elogio genérico, não o nome de alguém.

Blumell não fica só na teoria. Ele mostra três coisas: que esse jeito de escrever o endereço é idêntico ao usado em muitas outras cartas da época (inclusive na carta seguinte do mesmo autor, 3 João); que essa leitura com o nome “Eclecte” já aparece em manuscritos bíblicos antigos, alguns datados do século 11; e que o nome Eclecte era, sim, usado por mulheres reais naquele período, descartando a ideia de que seria um nome “inventado”.

Não é a primeira vez que isso acontece

Pode parecer estranho pensar que um erro de cópia ficou dois mil anos sem ser corrigido, mas não é a primeira vez que isso acontece na Bíblia.

Em 2005, outro pesquisador mostrou que um nome citado por Paulo em Romanos 16:7 também tinha sido lido errado ao longo dos séculos: o que sempre foi traduzido como o nome masculino “Júnias” era, na verdade, o nome feminino “Júnia”, apagando, também nesse caso, uma mulher de destaque na igreja cristã dos primeiros tempos.

Segundo Kraus, esse tipo de descoberta é um lembrete importante: mesmo quando um jeito de entender um versículo é aceito pela maioria dos estudiosos há muito tempo, isso não significa que ele esteja certo. De vez em quando, um novo olhar sobre os manuscritos antigos muda a forma como lemos a Bíblia, e, nesses dois casos, devolve à história mulheres que haviam sido apagadas dela.

Tem mais um detalhe bacana. No último versículo da carta, o autor manda lembranças da “irmã eleita” de Eclecte (2 João 1:13).

Para Blumell, isso não é coincidência: é um trocadilho proposital com o próprio nome dela, como quem diz “sua irmã, que também é eleita”, brincando com o significado do nome “Eclecte” em grego. Ou seja, ela era, literalmente, uma mulher que vivia à altura do próprio nome.

Uma carta para toda uma igreja

Devolver o nome de Eclecte à carta também ajuda a entender melhor o restante do texto. Ao longo de 2 João, o autor fala várias vezes dos “filhos” de Eclecte — e, segundo Blumell, esses “filhos” provavelmente não eram só filhos biológicos dela, mas os próprios membros da igreja que se reunia na casa dela.

Isso era comum no cristianismo primitivo: como ainda não existiam prédios de igreja, os primeiros cristãos costumavam se reunir na casa de alguém, e essa pessoa acabava exercendo um papel de liderança sobre o pequeno grupo.

Ou seja, Eclecte não era só uma destinatária qualquer: ela abria as portas da própria casa para que uma comunidade de cristãos pudesse se reunir, e o apóstolo João escrevia diretamente a ela, esperando que suas orientações fossem repassadas e seguidas por todo esse grupo.

E o que isso tem a ver com a Sociedade de Socorro?

Para os Santos dos Últimos Dias, essa descoberta tem um significado a mais. Em 1842, quando organizou a Sociedade de Socorro, Joseph Smith usou justamente esse versículo de 2 João, entendendo que ele falava de uma mulher real, “eleita para presidir” sobre as mulheres daquela igreja do primeiro século.

A pesquisa de Blumell reforça exatamente essa ideia: a de que, por trás da expressão “senhora eleita”, existiu uma mulher de verdade, alguém de confiança do apóstolo João, respeitada o bastante para que ele esperasse que ela liderasse e orientasse toda uma comunidade de fé.

E você, o que acha dessa descoberta? Conta pra gente nos comentários!

Fonte: The Interpreter Foundation

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