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Existem múltiplos graus dentro dos Reinos Celestial, Terrestre e Telestial?

Em 1832, Joseph Smith teve uma visão de que o céu é dividido em três glórias, ou reinos: celestial, terrestre e telestial. Essa visão hoje está registrada em Doutrina e Convênios 76.

Dez anos depois, em 1843, Joseph Smith ensinou algo a mais: “Na glória celestial há três céus, ou graus.” Esse ensinamento, registrado por seu escriba William Clayton em 16 de maio de 1843, está hoje canonizado em Doutrina e Convênios 131:1.

Com base nesse versículo, A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias ensina, até hoje, que existem três graus dentro do próprio reino celestial, que é o mais alto dos três reinos descritos em D&C 76.





A dúvida que contesta essa interpretação

Em um ensaio publicado em 2021, o pesquisador Shannon Flynn contestou essa interpretação. Segundo ele, D&C 131:1 não estaria falando de subdivisões dentro do reino celestial, seria apenas uma forma diferente de descrever os três reinos já mencionados em D&C 76 (celestial, terrestre e telestial). Ou seja, para Flynn, não existiriam três graus dentro do reino celestial.

A proposta de Flynn se apoia em duas ideias principais:

  1. Na época de Joseph Smith, a palavra “celestial” significava simplesmente “celeste” ou “pertencente ao céu” de forma genérica, então D&C 131:1 deveria ser lido como “no céu, há três graus” (ou seja, os três reinos de D&C 76).
  2. A interpretação atual da Igreja, de que existem três graus dentro do reino celestial, seria uma “invenção” do século XX, baseada em um único discurso de um único Apóstolo (Melvin J. Ballard, em 1922), sem quase nenhum outro apoio apostólico antes ou depois disso.

A primeira ideia provavelmente está errada, e a segunda é claramente falsa.

O que Joseph Smith realmente quis dizer com “celestial”

É verdade que, no século XIX, fora da Igreja, a palavra “celestial” era normalmente usada como sinônimo de “céu” em geral. Mas isso não significa que foi assim que os Santos dos Últimos Dias, e o próprio Joseph Smith, passaram a usar essa palavra depois da visão de 1832.

Vários sinais indicam que, entre os Santos, a palavra “celestial” passou a significar especificamente a parte mais alta do céu, não o céu como um todo:

  • A visão de 1832 foi publicada rapidamente e se espalhou entre os membros da Igreja, que passaram a associar a palavra “celestial” a essa visão específica.
  • Os missionários pregavam regularmente sobre essa visão das três glórias, a ponto de, em 1837, Joseph Smith instruir os missionários na Inglaterra a não mencionarem esse ensinamento até que a obra estivesse mais estabelecida ali, o que só faz sentido se os missionários já estivessem ensinando isso regularmente em outros lugares.
  • Documentos da época mostram membros comuns usando termos como “reino celestial” e “reino terrestre” já se referindo a graus diferentes de glória, e não ao céu de forma genérica.

Além disso, ao analisar todos os documentos conhecidos de Joseph Smith em que a palavra “celestial” aparece, trinta e sete documentos ao todo, o autor mostra que, em cada um deles, a palavra está claramente associada à glória celestial específica da visão de 1832, e não ao céu em geral. Em uma carta de fevereiro de 1834, por exemplo, Joseph Smith deixou claro que, quando falava em entrar no “reino celeste”, ele queria dizer especificamente “a glória celestial”, uma afirmação que não faria sentido se “celestial” fosse apenas sinônimo de “céu”.

Com base nisso, o ensinamento de 1843 sobre “três graus” (hoje D&C 131:1) deve ser entendido como uma referência a três graus dentro do reino celestial, e não aos três reinos gerais de D&C 76.

A ideia de “três graus” não é uma invenção do século XX

A segunda parte da proposta de Flynn, de que essa interpretação surgiu do nada em 1922, com um único discurso do Élder Melvin J. Ballard, não resiste a uma pesquisa histórica mais completa.

O ensinamento de três graus dentro do reino celestial já era pregado por líderes da Igreja décadas antes de 1922, incluindo:

  • O Presidente Brigham Young, em discursos de 1854, 1857 e 1859 — neste último, ele afirma explicitamente: “no céu dos céus, ou no terceiro céu, no reino celestial.”
  • O Apóstolo Orson Pratt, que ensinou o mesmo princípio em 1859, 1869, 1873 e 1875.
  • O Apóstolo Orson Hyde, que em maio de 1859 confirmou o ensinamento de Pratt, declarando: “Vocês se lembram que o Irmão Pratt esclareceu para vocês que, no reino celestial, há diferenças… ele apontou 3 graus diferentes no reino celestial” — comparando esses três graus aos diferentes níveis de frutos na parábola do semeador.
  • O Apóstolo Erastus Snow, em 1883.

Depois da canonização de D&C 131:1, em 1876, o ensinamento continuou aparecendo repetidamente:

  • No influente livro Articles of Faith (1899), de James E. Talmage — na época, um respeitado estudioso do evangelho, revisado por três Apóstolos antes da publicação. Nele, Talmage afirma que há “uma multidão de subdivisões” no reino celestial, citando diretamente D&C 131:1 como apoio.
  • No livro Gospel Themes (1914), do Apóstolo Orson F. Whitney, que citou diretamente D&C 131:1: “O Profeta também ensinou que há graus de glória, mesmo no reino celestial; sendo sua linguagem exata: ‘Na glória celestial há três céus ou graus.’”
  • Em diversos manuais da Igreja publicados a partir de 1901 — muito antes do manual de 1981 identificado por Flynn como a primeira referência oficial.
  • Em discursos de conferência geral entre 1940 e 2000, feitos por pelo menos dois Presidentes da Igreja e seis Apóstolos.

Ou seja: em vez de ser uma ideia que “começou devagar e foi ganhando força” depois de 1922, como afirma a proposta de Flynn, o ensinamento de três graus no reino celestial já vinha sendo ensinado de forma consistente por líderes da Igreja havia mais de 60 anos antes do discurso de Ballard, e continuou sendo ensinado depois dele.

No próprio discurso de 1922 atribuído por Flynn como a origem dessa ideia, o Apóstolo Melvin J. Ballard declarou:

“Então eu quero dizer a vocês que há três graus de glória no Reino Celestial, e somente aqueles que alcançarem o grau mais alto da Glória Celestial serão candidatos a se tornarem o que Deus é.”

E os outros dois reinos?

Existe também a possibilidade de que os reinos terrestre e telestial tenham múltiplos graus internos, embora as escrituras revelem muito menos detalhes sobre eles.

Doutrina e Convênios 76:98 já sugere isso ao comparar a glória do reino telestial com as estrelas: “E a glória do telestial é uma, como a glória das estrelas é uma; pois como uma estrela difere de outra em glória, assim também diferem em glória uns dos outros no mundo telestial.”

Charles W. Penrose, então na Primeira Presidência, ensinou o mesmo a respeito do reino terrestre: “Aqueles que entram no reino terrestre devem ter certas qualidades que são explicadas; há vários graus nessa mesma glória.”

O Presidente Dallin H. Oaks explicou que “O Senhor decidiu nos revelar comparativamente pouco em relação a dois desses reinos de glória.”

O que isso significa para nós

Desde 1832, os Santos dos Últimos Dias, e o próprio Joseph Smith, passaram a usar a palavra “celestial” de forma diferente do uso comum da época, associando-a especificamente à glória mais alta descrita na visão de 1832, e não ao céu em geral.

O ensinamento de que existem três graus dentro do reino celestial não é uma invenção do século XX. Ele já era ensinado por Brigham Young, Orson Pratt e Orson Hyde, entre outros, décadas antes do discurso de Melvin J. Ballard em 1922, e continuou sendo ensinado repetidamente depois disso, até os dias de hoje.

Como o próprio Presidente Dallin H. Oaks declarou em um discurso de outubro de 2023:

“Na glória celestial há três níveis, dos quais o mais elevado é a exaltação no reino celestial. (…) A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias se centraliza nessas coisas porque o propósito dessa Igreja restaurada é preparar os filhos de Deus para a salvação na glória celestial e, mais especificamente, para a exaltação em seu grau mais elevado.”

Baseado no artigo de David W. Smith

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Post original de Maisfé.org

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